Nesta semana ela me falou sobre a gentileza. Característica rara nos dias de hoje onde mal temos tempo para a comunicação rudimentar.
Ela me falava de uma entrevista de Mário Quintana. Ele dizia como prezava a característica gentileza. Contava que gostava de passar no prédio onde um grande amigo dele morava e deixava na portaria do prédio um quindim e um bilhete. Um dia, o porteiro do prédio o questionou da razão dele não ir ao apartamento do amigo e entregar a guloseima pessoalmente. Ele disse que não queria incomodar.
O porteiro se indignou e argumentou que, como eles eram amigos, o morador do apartamento não se incomodaria. Nosso sábio escritor começou a exemplificar situações em que mesmo amigos incomodam. Como quando estamos cansados de um dia de trabalho, chegamos em casa e queremos banho e cama e alguém, sem avisar, chega para uma visita de surpresa. Ou quando estamos namorando, ou chorando, ou simplesmente vestidos com aquele suéter surradíssimo mas que amamos usar, mas nos apavoramos com a idéia de que alguém nos veja com ele. Ele também contou que bate à porta do quarto de sua filha, para verificar se ele pode entrar. Bate até mesmo à porta do seu próprio quarto, assim ele se certifica se sua mulher deseja vê-lo ou prefere tirar um tempo só para ela.
Isto tudo é gentileza, disse minha querida guru. Concordei com ela.
Acredito que deveríamos utilizar mais "poderia", "gostaria", "seria possível". Precisamos tirar tempo para articular palavras agradáveis ao invés de soltar gírias sem sentido na tentativa de economizar tempo. Precisamos ser mais suaves. Articular mais as palavras. Assim, quem sabe, possamos nos ouvir e dizer menos besteiras.
Mas gentileza não reside somente nas palavras não. Pequenos gestos no dia-a-dia deixam tudo mais leve.
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