"À minha frente, um auditório cheio de idosos, cabelos brancos, calvas, rugas, desejoso de viver a vida. Eu, muito mais novo que eles (isso aconteceu há vinte anos...), comecei: "Senhoras e senhores: Então vocês chegaram finalmente à idade em que podem se dar ao luxo de ser totalmente inúteis..." Estabeleceu-se a confusão. Protestos. Serenados os ânimos, continuei: "Uma sonata de Mozart é inútil, não serve para nada. Mas uma vassoura é muito útil. Vocês preferem a companhia das vassouras à companhiada música de Mozart... Uma poesia do Fernando Pessoa não serve para nada, é inútil, mas o papel higiênico é muito útil. Vocês acham o papel higiênico mais importante que a poesia do Fernando Pessoa...". Os rostos bravos abriram-se em sorrisos. Eles compreenderam..."(Ostra feliz não faz pérola - Rubem Alves - Editora Planeta)
Li isto ontem e pensei: falta muito para eu começar a ser inútil? Tomara que não.
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